domingo, 22 de janeiro de 2012

Trama


Nós, autômatos miseráveis, indigentes indulgentes, famintos, sozinhos, perdidos, tão receosos e ávidos pelo fim, incapazes de perceber que a resposta há tempos procurada chegou sem aviso e confundiu-se com nossa incomensurável angústia. A vida é uma causa perdida, o que não a torna banal; fenecer diariamente sustém o nosso amor às causas perdidas, assim como a consciência da finitude nos garante o incessante desespero frente à existência, desespero sem o qual tudo passaria a existir objetivamente, inelutavelmente.
Pulhas, somos uns pulhas imperdoáveis com muito poder de destruição, ao mesmo tempo donos de uma covardia paralisante. A Beleza sempre nos será acidental e o ódio nossa força motriz. Desistimos incansavelmente, “nascemos, comemos, defecamos, fornicamos, matamos e morremos”. Desperdiçamos, iludimo-nos uns aos outros e a nós mesmos na fútil tentativa de escapar, apenas escapar. Optamos por perder qualquer luta, somos a (in)falível combinação de derrota e pulsão sexual dotada de linguagem e de uma adorável, porém tola, ânsia por felicidade – produto bastante lucrativo nos mercados especulativos, mas indisponível às massas vilipendiadas sem descanso. 

sábado, 23 de julho de 2011

23/07/2011


Só pode ser uma brincadeira de muito mau gosto... Não posso acreditar que Amy Winehouse morreu. Simplesmente, nego essa notícia. Ela não podia morrer. A maior ARTISTA de todos os tempos não poderia morrer assim, do nada, por nada... Talvez seja mesmo verdade e darei um jeito de me conformar com a maior perda da história da música. Eu odeio subcelebridades. Ver subcelebridades “justificando” a morte de Amy Winehouse é demais pra mim. Saiu tanta porcaria no twitter... Uma Bianca-não-sei-o-que-lá pede para que os seguidores de Amy “coloquem a mão na consciência”, e eu me pergunto: por que? Para se conscientizarem de que nem quando a raça humana for extinta e uma raça superior a substituir existirá uma guria com um décimo do talento de Amy Winehouse? Fiuk disse que “cada um faz as suas escolhas” e dá recadinho útil para que seus seguidoresinhos não usem drogas porque é muito feio e você pode morrer por isso. Ele tem razão que cada um faz as suas escolhas, mas ninguém jamais poderá “escolher” ter o talento de Amy Winehouse, NUNCA, nem em um milhão de anos. Outra moça, que tem por sobrenomepseudoartístico “Bananinha” perdeu uma grande oportunidade de ficar calada ao dizer que perdemos uma grande artista para a droga... Porra, visto que esse comentário partiu de um vegetal até que foi bem inteligente! Além disso, há uma infinidade de comentários porcos sobre o uso de drogas, usodedrogas, “Amy usava drogas, iria morrer a qualquer momento mesmo...”. Sério, isso? Morreu a maior ARTISTA que eu já vi (e acho que não vi tão poucas assim) e isso é tudo que as pessoas que estão na mídia têm a dizer sobre ela? Será que a Sandy gostou? Porque devia ser frustrante pra qualquer cantora saber que existia a voz de Amy Winehouse. E aqui vocês percebem a distinção entre artista e cantor, certo? Pois bem: Amy Winehouse é ARTISTA, Ivete Sangalo (um exemplo, apenas) é cantora... Nada sutil, hã? Artistas exprimem o inexprimível com uma nota alta que alcançam com perfeição (com um jeito de chorar em um filme, com uma pincelada, com duas palavras...). Cara, bobagem muito grande condenar a dependência química e todo o mais (não é legal, destrói famílias, blablabla...) agora que jaz Amy Winehouse. Ela morreu, a alma dela não está livre, ela não está cantando no inferno, ela não é uma estrelinha brilhando no céu nesse momento. Amy Winehouse apenas voltou ao inelutável nada do qual viemos e para o qual todos voltaremos qualquer dia desses. A gritante diferença é que todos passarão, Ela, passarinho...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Transformers 3

Quinta-feira, pela primeira vez, fui ver um filme em 3D. Péssimo. Meus olhos sangraram; fogos de artifícios saíram pelas minhas têmporas. Mas nada disso foi tão traumatizante quanto o filme: Transformers 3.
Por que, meu deus? Por que surge na cabeça de uma pessoa (que certamente teve alguém que a impedisse de morrer afogada na própria merda) a ideia de máquinas com dilemas maniqueístas? E por que alguém produz uma coisa dessas? Por que esse filme bate recorde de bilheteria? E por que o salto daquela menina não quebrou/o cabelo não assanhou/a maquiagem não borrou? Por que, meu deus?
Não terei essas respostas. E não morrerei por indagações tão banais. Mas não entendo, não entendo... Um dia desses ainda ficarei sucumbirei por causa desses abismos quotidianos.
Dias antes, após longo período sem nada assistir, vi Spartacus, mais de três horas de filme e quando acabou meu coração estava aquecido... ai, ai! Acho que esse tal Transformers durou pouco mais de duas horas e eu quis morrer. Só um pequeno adendo: gastei suados dez reais com o dito filme por causa da dor de cotovelo de um pobre amigo com quem há muito não falava, achei justo um pouco de sacrifício cinematográfico para ajudar uma alma sofrida que me pediu socorro. Eu jamais escolheria aquele troço deliberadamente, a ideia foi da pobre alma enternecida.
Pois bem, como sou uma pessoa que na maioria das vezes tem motivos para não gostar de algo, eis alguns:
1. Não adianta, máquinas são máquinas. Nem o melhor protagonista do melhor filme de todos os tempos vai me provar que máquinas têm sentimentos ou que são humanos ou que podem demonstrar afeto...
2. Odeio traidores e o Optimus Prime é um traidor do movimento (na medida em que ele é máquina e traição é uma coisa iminentemente humana);
3. Seres humanos são patéticos: escravizaram-se desde o início dos tempos, mas quando aparece qualquer outra criatura querendo escravizar todo mundo eles travam uma guerra para que isso não aconteça. Poxa, eles tinham um motivo nobre, o planeta deles, no qual eles eram deuses, estava destruído. Sabemos de casos bem recentes em que países invadem outros países só para buscar um punhadinho das escassas riquezas do país submetido... Patéticos, patéticos...
4. O salto daquela criatura linda (ainda que eu prefira Greta Garbo e Jude Davis) não quebrou: ela correu desesperadamente, caiu de prédio, escalou um robozinho do mal (e colocou ele contra o outro robozinho do mal – estou ficando louca ou isso é estranho? Não, não acho que cinema sobreviva de “estranho” como dizem uns), correu de novo, caiu de novo, puloucorreuescorregoupuloucaiucorreu e o salto estava lá, intacto! Sem contar o cabelo e a maquiagem que permaneceram perfeitos. Nem um arranhãozinho naquele rosto descomunalmente belo...
5. O protagonista me da pena;
6. A Sessão da Tarde tem finais beeeem melhores.
Sabe de uma coisa, estou falando besteira. Não entendo nada desse tipo de filme. E não entendo nada de nada. É bem melhor que me calem os bons críticos.
E Transformers 3 é ruim mesmo. E 3D dá meningite e câncer no cérebro.

sábado, 14 de maio de 2011

E-S-T-Ú-P-I-D-A


Não é com muito pesar que venho a público declarar minha imensa estupidez. Sou estúpida por, insistentemente, estigmatizar as pessoas com meus ideais ridículos e depois, percebendo que elas não têm nada a ver com a minha idealização barata, entristeço-me profundamente.
Estúpida, por esperar de algumas pessoas, poucas, bem poucas, a mesma misantropia que me é tão cara, limitando-as aos meus patéticos conceitos do que seria verdadeiro e justo e belo. Estúpida e egoísta, por tentar criar espelhos mesmo sabendo de sua sensibilidade: espelhos refletem um mundo, um mundo bem maior que o meu!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Depois, só depois


Fazer amigos é uma coisa muito boa, mas muitos problemas surgem nesse momento. Todos fazem questão de tornar o ato de socializar-se algo impossível. Você nunca conseguirá fazer amigos se não souber qual é o bar do momento. Nunca conseguirá fazer amigos se não souber na íntegra a letra daquela música que está em alta. O seu círculo de amizade jamais entrará em processo de expansão se você não acompanhar as dezenas de novelas que são exibidas diariamente em todos os canais e todos os placares de todos os jogos de todos os esportes. Você nunca será o centro das atenções se não dominar a fúria informacional que invade as pessoas todos os dias. Fúria por informações superficiais, mas de importância capital para os nossos novos amigos. Você será sempre o mesmo antissocial de merda se insistir em cultivar os mesmos princípios patéticos.  As pessoas lá fora esperam por provas de amor. Inventam sempre um ritual de aceitação novo e você nunca será suficiente bom para passar nos testes.
Amizade é um troço bonito por demais. Às vezes percebo a minha completa inabilidade para fazer novos e bons e saudáveis amigos. Algumas pessoas têm um talento natural para falar coisas sem sentido diante de conversas sem sentido, não é o meu caso. Simplesmente fico muda quando não tenho nada pra dizer. Isso seria o natural, certo? A resposta é: claro que não! Quanto mais estúpidas forem as suas colocações diante do mais banal assunto, maiores são as suas chances de ter um milhão de amigos. E não me venham com essa de que qualidade é melhor que quantidade, ninguém acredita nisso. Estamos todos sedentos de notoriedade.
Essa sede por notoriedade nos matará, e nos matará sem sangue! Vendemos a imagem que julgamos ser a mais condizente com os anseios daquele sujeito que se candidatou a amigo. Somos objetos execráveis, essa é a verdade. Travestimo-nos tantas vezes forem necessárias no mesmo dia para agradar pessoas que podem nos agradar futuramente. Somos todos uns falsários trocando favores. Todos com lama até o pescoço e um sorriso impassível num rosto de madeira fácil de talhar.
Semelhantes se reconhecem facilmente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2011


Encontrei por ali pessoas tão desiludidas e tão bonitas. Pessoas que engolem a cachaça pura antes das seis da manhã com o fugaz intento de suportar a insuportável vida que todos levam. Essas mesmas pessoas, ainda com a garganta em chamas, levam pra casa fogos de artifício com o frágil objetivo de comemorar o novo ano que chega sem grandes perspectivas. Um ano terminou como terminaram todos os outros e o seguinte continuará desesperadoramente igual aos passados. E as pessoas desiludidas e bonitas continuarão dando golpes à lucidez com o mesmo fútil instinto de sobrevivência dos seus tristes ancestrais...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pensar é não saber existir*


Cada pessoa, certamente, abriga uma infinidade de possibilidades e por conta disso não acredito em teorias psicanalíticas que limitam as ações humanas a traços fechados de personalidade. É certo que algumas pessoas são menos inclinadas às intempéries emocionais. Entretanto, acredito que a imensa maioria de nós, pobres solitários abandonados por deus, não pode entrar em classificações que tentam sempre transformar cada indivíduo em partes apenas dissidentes de uma massa amorfa, que veio de lugar nenhum e deseja desesperadamente o dia do regresso.
Existe algo de “essencial” em cada criatura que respira sobre a Terra, talvez seja o que chamam de “ESSÊNCIA”. Afora esta brilhante dedução, a essência é o que de mais antinatural se encontra nas criaturas aeróbicas e conscientes do universo (não acredito em vida fora da Terra, deus não faria isso conosco, ele é demasiadamente misericordioso).
Passamos todos os nossos parcos anos de vida tentando construir a nossa imagem diante do mundo, diante do espelho, dentro do banheiro, na escuridão dos gatos pardos. Todo o verdadeiro da essência se esvai nos caminhos tortuosos da “formação da personalidade”. O que fica da desafortunada “essência” é um opróbrio: todos sentimos muita vergonha de nossa naturalidade, do que nos é inato. E isso é perfeitamente compreensível. Queremos ser aceitos, mesmo que isso seja o assassínio de nós mesmos.
Distante do sombrio de nós mesmo, distantes de nossa essência, podemos ser tudo o que mundo exigir. Todos se acostumaram a matar dezenas de leões por dia para esconder o que de (im)puro abrigam. Talvez isso pareça absurdo, mas ESSE absurdo já foi de tal forma institucionalizado que absurdo parece ser de verdade.
 Herdeiros somos do descalabro, da sujeira que nos restou. Herdeiras serão as próximas gerações que não saberão filtrar o que de bom houve na tão decantada geração passada. A desnaturalização será outra, enquanto os veteranos sofrem com a nostalgia de tempos que ficaram para trás. Sabem eles que não foram muito diferentes, mas sofrem com a impossibilidade de voltar no tempo e morrer quando tinham quinze anos. Justamente como sofrem hoje os nossos anciãos achando que o mundo se perdeu um algum Woodstock.
Num átimo, todos percebem que não estão aqui, alguma coisa deu drasticamente errado, irremediavelmente errado. 

*Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego